domingo, 30 de março de 2008

O caso do telemóvel no Carolina (parte II)


Faço minhas as palavras desta Senhora (ler em baixo) e de muitas outras pessoas sensatas, que neste país se têm manifestado sobre este lamentável caso de indisciplina, má educação e falta de respeito (de uma turma inteira) para com uma Professora da Escola Sec. Carolina Michaelis.
Mas não me surpreende. Assim como não surpreende a maioria dos Professores portugueses que dão aulas sobretudo nas áreas metropolitas de Lisboa e Porto.
Existe indisciplina nas Escolas: os alunos falam constantemente, apesar de também constantemente chamados à atenção para estarem calados e atentos, muitos não estão
quietos, alguns mexem no telemóvel por baixo da mesa (a desculpa é sempre "Estava a ver as horas."), distraem os colegas, gozam com outros que participam nas aulas, muitas vezes são maus uns com os outros,... perturbam as aulas. As participações disciplinares implicam em alguns casos umas limpezas de folhas de árvores durante uma ou duas manhãs ou tardes... e já está.
E o que acontece? Passam com três e quatro negativas (porque "a retenção de um aluno é uma situação excepcional") e no próximo ano lá estão: sem bases e sem responsabilidade. É a cultura do facilitismo.
É também por isto que eu já não gosto tanto de dar aulas...
Nos últimos catorze anos a minha motivação inicial de uma carreira no ensino já era...
Lamento. Estou triste, cada mês mais triste com este Sistema de Ensino e com esta "carreira". (O meu pai é que tinha razão, queria que eu fosse farmacêutica ou arquitecta. Pelo menos são profissões bem mais respeitadas.)

Fátima Vieira



E agora a opinião de Alice Vieira

Desculpem se trago hoje à baila a história da professora agredida pela aluna, numa escola do Porto, um caso de que já toda a gente falou, mas estive longe da civilização por uns dias e, diante de tudo o que agora vi e ouvi (sim, também vi o vídeo), palavra que a única coisa que acho verdadeiramente espantosa é o espanto das pessoas.
Só quem não tem entrado numa escola nestes últimos anos, só quem não contacta com gente desta idade, só quem não anda nas ruas nem nos transportes públicos, só quem nunca viu os "Morangos com açúcar", só quem tem andado completamente cego (e surdo) de todo é que pode ter ficado surpreendido.
Se isto fosse o caso isolado de uma aluna que tivesse ultrapassado todos os limites e agredido uma professora pelo mais fútil dos motivos - bem estaríamos nós! Haveria um culpado, haveria um castigo, e o caso arrumava-se.
Mas casos destes existem pelas escolas do país inteiro. (Só mesmo a sr.ª ministra - que não entra numa escola sem avisar…- é que tem coragem de afirmar que não existe violência nas escolas…)
Este caso só é mais importante do que outros porque apareceu em vídeo, e foi levado à televisão, e agora sim, agora sabemos finalmente que a violência existe!
O pior é que isto não tem apenas a ver com uma aluna, ou com uma professora, ou com uma escola, ou com um estrato social.
Isto tem a ver com qualquer coisa de muito mais profundo e muito mais assustador.
Isto tem a ver com a espécie de geração que estamos a criar.
Há anos que as nossas crianças não são educadas por pessoas. Há anos que as nossas crianças são educadas por ecrãs.
E o vidro não cria empatia. A empatia só se cria se, diante dos nossos olhos, tivermos outros olhos, se tivermos um rosto humano.
E por isso as nossas crianças crescem sem emoções, crescem frias por dentro, sem um olhar para os outros que as rodeiam.
Durante anos, foram criadas na ilusão de que tudo lhes era permitido.
Durante anos, foram criadas na ilusão de que a vida era uma longa avenida de prazer, sem regras, sem leis, e que nada, absolutamente nada, dava trabalho.
E durante anos os pais e os professores foram deixando que isto acontecesse.
A aluna que agrediu esta professora (e onde estavam as auxiliares-não-sei-de-quê, que dantes se chamavam contínuas, que não deram por aquela barulheira e nem sequer se lembraram de abrir a porta da sala para ver o que se passava?) é a mesma que empurra um velho no autocarro, ou o insulta com palavrões de carroceiro (que me perdoem os carroceiros), ou espeta um gelado na cara de uma (outra) professora, e muitas outras coisas igualmente verdadeiras que se passam todos os dias.
A escola, hoje, serve para tudo menos para estudar.
A casa, hoje, serve para tudo menos para dar (as mínimas) noções de comportamento.
E eles vão continuando a viver, desumanizados, diante de um ecrã.
E nós deixamos.

Alice Vieira
In JN, 30/03/08

O caso do telemóvel no Carolina (parte I)

A opinião de Moita Flores (Blog do Prof. Ramiro Marques)

Estamos a produzir uma sociedade inculta, egoísta, medrosa, narcísica, cujas referências maiores são o consumismo.
Ainda bem que naquela sala de aula da escola Carolina Michaelis estava um alarve que, perdido de gozo, filmou a cena de violência entre a ‘velha’, como ele lhe chamava, e a aluna que se atirou à professora por esta lhe ter retirado o telemóvel durante uma lição.
Ainda bem que estas imagens foram para a internet, para a televisão, para os jornais. Ainda bem que se ouviram as gargalhadas de uma turma que ululava aos gritos histéricos da rapariga, enquanto o alarve, danado de gozo, filmava e gritava para a ‘gorda’ se afastar para produzir melhores imagens. Ainda bem que vimos alguns alunos procurando ajudar a professora para não se concluir que, em vez de uma escola, estamos num território dominado por um gang.
É a evidência daquilo que há muito tempo se conhece. Em muitas escolas, um professor que entra numa sala de aula candidata-se a entrar num filme de terror.
O problema essencial que está em cima da mesa é estruturante, atinge diversos níveis da nossa vida colectiva, é revelador do nível de desorientação que hoje determina políticas incoerentes, desconexas, ditadas por um falso humanismo e por um falso sentido de cidadania.
Falamos do problema da autoridade. Que afecta a escola, que afecta as forças de segurança, que afecta a família, que afecta a organização estruturada do poder em geral.
É certo que viemos de um tempo histórico que durante meio século se pautou pelo autoritarismo, a discricionariedade, pela amputação de direitos cívicos elementares. Mas passaram trinta e quatro anos e este jeito tão português de atirar as culpas para o passado e não é preciso ressuscitar fantasmas para dizer o que deve ser dito: Estamos a produzir uma sociedade inculta, egoísta, medrosa, narcísica cujas referências maiores são o consumismo e, simultaneamente, o rompimento de teias de solidariedade ancestrais.
A autoridade num Estado democrático deve ser reconhecida, e admitida, por quem a percebe e que com ela se relaciona. Os filhos face à autoridade dos pais, os cidadãos perante as determinações policiais ou judiciárias, os alunos perante os seus professores e por aí adiante. É posse de quem a usa mas só existe se lhe for reconhecida. E chegados aqui, somos capazes de perceber que a crise da autoridade, nos vários níveis do quotidiano, resulta da ausência de estímulos para que ela seja reconhecida. A começar pela rápida dessacralização das relações verticais de solidariedade, pela dissolução das redes intermédias do poder, pela socialização de comportamentos tidos como bons que não produzem cidadania mas o seu abastardamento.
O telemóvel tornou-se o símbolo e o mito de uma sociedade tecnologicamente avançada. Mas vazia de humanismo, de sentido de existência, de fome de liberdade. Os Hunos que vimos em acção na Carolina Michaelis são nossos, nascidos da nossa ignorância tecnologizada, da nossa consciência democrática feita com pés de barro e minada por atavismos. De facto, iludidos que andámos muito, estamos a produzir desilusão e pesadelos. E o direito ao sonho? Onde é que pára?

Francisco Moita Flores, Docente Universitário

Aluno vítima de bullying durante um ano inteiro

Sabem porque é que os Alunos e Professores não se queixam de muitas situações de indisciplina / violência que ocorrem nas Escolas?!!

No blogue do Prof. Ramiro Marques estão duas das explicações possíveis:

Esta aconteceu numa escola do Sul do país. Durante um ano lectivo, um aluno de 13 anos foi vítima de bullying por parte de três alunos mais velhos. Todas as semanas, o aluno mais novo era "levado ao poste". O aluno era amarrado ao poste da baliza de futebol e era pontapedado pelos colegas mais velhos que, simultaneamente, o insultavam. Quando o aluno passava pelos três colegas mais velhos era obrigado a parar, fazer uma vénia e dar-lhes a vez. O aluno agredido passou a sofrer de incontinência urinária e a querer faltar à escola. A mãe do aluno dirigiu-se várias vezes à escola, pedindo explicações e solicitando ajuda. Durante os primeiros meses do calvário, a directora de turma e o conselho executivo foram exigindo testemunhas. Não havia ninguém na turma que quisesse testemunhar contra os três alunos agressores. Todos tinham medo deles. No final do 2º período, a directora de turma tomou a iniciativa de fazer uma exposição ao CE solitando a mudança do aluno agredido para outra turma. O requerimento andou para cima e para baixo e o 3º período chegou ao fim. O aluno vítima das agressões só foi transferido de turma no ano lectivo seguinte. Nada aconteceu aos três alunos agressores.

Ou este caso:

Fui vítima de violência física e verbal por parte dos pais de um aluno da minha escola há já 4 anos. Isso aconteceu porque o repreendi por ter batido num colega. O aluno que eu repreendi, como vingança, fugiu da escola e foi dizer aos pais que eu o tinha agredido. Os pais vieram á escola e agrediram-me violentamente. Fui parar ao hospital, bem como a colega que me defendeu. Apresentámos queixa, fomos a julgamento e como faltava um documento do instituto de reinserção social, pois são de etnia cigana e recebem rendimento mínimo, ainda estou por saber afinal qual foi a sentença. À criança, na altura, nada lhe aconteceu, pois tinha idade inferior a 10 anos. Aos pais, nada soube que tivesse mudado na vida deles. Afinal de que serviu tudo isto?
Antónia

O que será?!

O que será? Um pássaro? Um avião?



Não!
É uma professora portuguesa!
Com certeza!

Blogue:

Nova Avaliação dos Alunos

segunda-feira, 24 de março de 2008

sexta-feira, 21 de março de 2008

As Baleias

Quem se lembra desta música?



As Baleias - Roberto Carlos (1981)

Se uma criança

Se uma criança vive na crítica,

Aprende a condenar.

Se uma criança vive na dúvida,

Aprende a desconfiar dos outros.

Se uma criança vive na hostilidade,

Aprende a lutar.

Se uma criança vive no ridículo,

Aprende a sentir-se culpada.

Se uma criança vive na tolerância,

Aprende a ser paciente.

Se uma criança vive no encorajamento,

Aprende a confiar.

Se uma criança vive no reconhecimento,

Aprende a estimar.

Se uma criança vive na lealdade,

Aprende a justiça.

Se uma criança vive na segurança,

Aprende a ter fé.

Se uma criança vive na aprovação,

Aprende a auto-estimar-se.

Se uma criança vive na amizade,

Aprende a encontrar o amor no mundo.

Anónimo


In Terrear

Súplica de uma criança aos seus professores

Ensinem-nos o entusiasmo
Ensinem-nos o espanto da descoberta
Não nos dêem apenas as vossas respostas
Despertem as nossas perguntas
Sobretudo acolham as nossas interrogações
Convidem-nos a respeitar a vida.
Ensinem-nos a mudar, a partilhar, a dialogar,
Ensinem-nos todos os possíveis da comunhão
Não nos dêem apenas o vosso saber
Acordai a nossa fome de ser
Acolhei as nossas contradições e as nossas hesitações
Chamem-nos a engrandecer a vida.
Ensinem-nos o melhor de nós próprios
Ensinem-nos a contemplar, a explorar, a tocar o indizível
Não dêem apenas o vosso saber-fazer
Despertem em nós o gosto do empenhamento
Acolham a nossa criatividade
para balizar um futuro
Chamem-nos a enriquecer a vida.

Ensinem-nos o reencontro com o mundo
Ensinem-nos a ouvir para lá das aparências
Não tragam apenas coerência e fragmentos de verdade
Acordem em nós a busca do sentido
Acolham as nossas errâncias e incongruências
Incitem-nos a entrar numa vida mais ardente.
É de uma urgência vital.

Jacques Salomé

In Terrear

0 prazer da Leitura

Alfabetizar é ensinar a ler. A palavra alfabetizar vem de "alfabeto". "Alfabeto" é o conjunto das letras de uma língua, colocadas numa certa ordem. É a mesma coisa que "abecedário". A palavra "alfabeto" é formada com as duas primeiras letras do alfabeto grego: "alfa" e "beta". E "abecedário", com a junção das quatro primeiras letras do nosso alfabeto: "a", "b", "c" e "d". Assim sendo, pensei a possibilidade engraçada de que "abecedarizar", palavra inexistente, pudesse ser sinónimo de "alfabetizar"...
"Alfabetizar", palavra aparentemente inocente, contém a teoria de como se aprende a ler. Aprende-se a ler aprendendo-se as letras do alfabeto. Primeiro as letras. Depois, juntando-se as letras, as sílabas. Depois, juntando-se as sílabas, aparecem as palavras... E assim era. Lembro-me da criançada a repetir em coro, sob a regência da professora: "bê-â-bâ; bê-e-bê; bê-i-bi; bê-ô-bô; bê-u-bu"... Estou a olhar para um postal, miniatura de um dos cartazes que antigamente se usavam como tema de redacção: uma menina deitada de bruços sobre um divã, queixo apoiado na mão, tendo à sua frente um livro aberto onde se vê "fa", "fe", "fi", "fo", "fu"...
Se é assim que se ensina a ler, ensinando as letras, imagino que o ensino da música se deveria chamar "dorremizar": aprender o dó, o ré, o mi... Juntam-se as notas e a música aparece! Posso imaginar, então, uma aula de iniciação musical em que os alunos ficassem a repetir as notas, sob a regência da professora, na esperança de que, da repetição das notas, a música aparecesse... Todo a gente sabe que não é assim que se ensina música. A mãe pega no bebé e embala-o, cantando uma canção. E a criança percebe a canção. 0 que o bebé ouve é a música, e não cada nota, separadamente! E a evidência da sua compreensão está no facto de que ele se tranquiliza e dorme - mesmo nada sabendo sobre notas!
Eu aprendi a gostar de música clássica muito antes de saber as notas: a minha mãe tocava-as ao piano e elas ficaram gravadas na minha cabeça. Somente depois, já fascinado pela música, fui aprender as notas - porque queria tocar piano. A aprendizagem da música começa como percepção de uma totalidade - e nunca com o conhecimento das partes.
Isto é verdadeiro também sobre aprender a ler. Tudo começa quando a criança fica fascinada com as coisas maravilhosas que moram dentro do livro. Não são as letras, as sílabas e as palavras que fascinam. É a história. A aprendizagem da leitura começa antes da aprendizagem das letras: quando alguém lê e a criança escuta com prazer. A criança volta-se para aqueles sinais misteriosos chamados letras. Deseja decifrá-los, compreendê-los - porque eles são a chave que abre o mundo das delícias que moram no livro! Deseja autonomia: ser capaz de chegar ao prazer do texto sem precisar da mediação da pessoa que o está a ler.
Num primeiro momento, as delícias do texto encontram‐se na fala do professor. Usando uma sugestão de Melanie Klein, o professor, no acto de ler para os seus alunos, é o "seio bom", o mediador que liga o aluno ao prazer do texto. Confesso nunca ter tido prazer algum em aulas de gramática ou de análise sintáctica. Não foi nelas que aprendi as delícias da literatura. Mas lembro‐me com alegria das aulas de leitura. Na verdade, não eram aulas. Eram concertos. A professora lia, interpretava o texto, e nós ouvíamos, extasiados. Ninguém falava.
Antes de ler Monteiro Lobato, eu ouvi-o. E o bom era que não havia exames sobre aquelas aulas. Era prazer puro. Existe uma incompatibilidade total entre a experiência prazerosa da leitura – experiência vagabunda! – e a experiência de ler a fim de responder a questionários de interpretação e compreensão. Era sempre uma tristeza quando a professora fechava o livro...
Vejo, assim, a cena original: a mãe ou o pai, livro aberto, a ler para o filho... Essa experiência é o aperitivo que ficará para sempre guardado na memória afectiva da criança. Na ausência da mãe ou do pai, a criança olhará para o livro com desejo e inveja. Desejo, porque ela quer experimentar as delícias que estão contidas nas palavras. E inveja, porque ela gostaria de ter o saber do pai e da mãe: eles são aqueles que têm a chave que abre as portas de um mundo maravilhoso!
Roland Barthes faz uso de uma linda metáfora poética para descrever o que ele desejava fazer, como professor: maternagem – continuar a fazer aquilo que a mãe faz. É isso mesmo: na escola, o professor deverá continuar o processo de leitura afectuosa. Ele lê: a criança ouve, extasiada! Seduzida, ela pedirá: Por favor, ensine‐me! Eu quero poder entrar no livro por minha própria conta...
Toda a aprendizagem começa com um pedido. Se não houver o pedido, a aprendizagem não acontece. Há aquele velho ditado: É fácil levar a égua até ao meio do ribeirão. O difícil é convencer a égua a beber. Traduzido pela Adélia Prado: Não quero faca nem queijo. Quero é fome. Metáfora para o professor.
Todo o texto é uma partitura musical. As palavras são as notas. Se aquele que lê é um artista, se ele domina a técnica, se ele desliza sobre as palavras, se ele está possuído pelo texto – a beleza acontece. E o texto apossa‐se do corpo de quem ouve. Mas se aquele que lê não domina a técnica, se luta com as palavras, se não desliza sobre elas – a leitura não produz prazer: queremos logo que ela acabe.
Assim, quem ensina a ler, isto é, aquele que lê para que os seus alunos tenham prazer no texto, tem de ser um artista. Só deveria ler aquele que está possuído pelo texto que lê. Por isso eu acho que deveria ser estabelecida nas nossas escolas a prática dos "concertos de leitura". Se há concertos de música erudita, jazz – por que não concertos de leitura? Ouvindo, os alunos experimentarão o prazer de ler.
E acontecerá com a leitura o mesmo que acontece com a música: depois de termos sido tocados pela sua beleza, é impossível esquecer. A leitura é uma droga perigosa: vicia... Se os jovens não gostam de ler, a culpa não é só deles. Foram forçados a aprender tantas coisas sobre os textos – gramática, usos da partícula "se", dígrafos, encontros consonantais, análise sintáctica – que não houve tempo para serem iniciados na única coisa que importa: a beleza musical do texto. E a missão do professor?
Acho que as escolas só terão realizado a sua missão se forem capazes de desenvolver nos alunos o prazer da leitura. O prazer da leitura é o pressuposto de tudo o mais. Quem gosta de ler tem nas mãos as chaves do mundo. Mas o que vejo a acontecer é o contrário. São raríssimos os casos de amor à leitura desenvolvido nas aulas de estudo formal da língua.
Paul Goodman, controverso pensador norte‐americano, diz: Nunca ouvi falar de nenhum método para ensinar literatura (humanities) que não acabasse por matá‐la. Parece que a sobrevivência do gosto pela literatura tem dependido de milagres aleatórios que são cada vez menos frequentes. Vendem‐se, nas livrarias, livros com resumos das obras literárias que saem nos exames. Quem aprende resumos de obras literárias para passar, aprende mais do que isso: aprende a odiar a literatura.
Sonho com o dia em que as crianças que lêem os meus livrinhos não terão de analisar dígrafos e encontros consonantais e em que o conhecimento das obras literárias não seja objecto de exames: os livros serão lidos pelo simples prazer da leitura.

Rubem Alves. Gaiolas ou Asas - A arte do voo ou a busca da alegria de aprender.Porto, Edições Asa, 2004 (excertos adaptados)

In Terrear

Dia Mundial da Poesia - Gosto pela leitura

O gosto pela leitura deve ser incutido nas crianças pelos pais e Professores.

No blogue do Prof. Matias Alves, Terrear, encontrei este texto:


Há algum tempo, visitámos uma escola do 2.° ciclo do Ensino Básico, em Famalicão. Fomos descobrir aí um folheto resultante de uma pequena experiência levada a cabo pelo grupo de professores de Português. Eis o texto do folheto, apresentado sob a forma de carta dirigida aos pais:


Senhor(a) Encarregado(a) de Educação,

Vem aí o Natal! Na qualidade de professor(a) de Português venho ter consigo para, se mo permite, lhe dar uma sugestão e lhe fazer um apelo:
Quer que o seu filho desenvolva a sua sensibilidade, o seu gosto pela palavra e pelas histórias? Que cresça por dentro com valores como a solidariedade, a justiça, o amor, a verdade? Que aumente o seu saber? Que não conheça a solidão? Se quer isto e muitas coisas mais, compre, neste Natal que se avizinha, um bom livro para o seu filho. Como diz Sophia de Mello Breyner, «o livro é uma festa!». Torne mais festivo o Natal do seu filho, oferecendo‐lhe um bom livro que passará de mão em mão, de geração em geração, sempre mais valioso e mais amado.
Se quiser antecipar a sua prenda, pode comprar uma obra de Matilde Rosa Araújo – uma das nossas maiores escritoras de literatura infantil e juvenil – que virá à nossa Escola, no dia 10 de Dezembro. Ela, que sente e compreende as crianças como ninguém, não deixará de autografar o livro do seu filho – e ele terá, por isso, muito mais valor. Se preferir surpreendê‐lo mesmo na Festa de Natal, deixo‐lhe uma lista de bons autores para o ajudar na sua escolha.
Colabore com o (a) professor(a) de Português! Ajude‐nos a incentivar, no seu filho, o gosto pelos livros e pela leitura. E ele será, um dia, um adulto mais sábio, mais responsável, mais solidário e, de certeza, mais feliz.
Com os melhores cumprimentos,

O (a) professor(a) de Português


Este texto – integrado num projecto com origem na Escola visando a colaboração entre esta e a Família em prol da leitura – foi levado para casa por todos os alunos. O desdobrável continha ainda uma lista de doze autores de literatura infantil, portugueses e estrangeiros. Segundo testemunho de uma das principais animadoras da iniciativa, Manuela Monteiro, delegada de disciplina, os resultados excederam as expectativas. Uma simples feira do livro e um encontro com um escritor na escola transformaram‐se, assim, em momentos privilegiados de um processo de colaboração entre professores e pais em torno da necessidade de promover o livro, fomentar o gosto de ler e contribuir para o sucesso educativo e pessoal – o qual passa, cada vez mais, pela melhoria das competências de leitura dos alunos. (...)

José António Gomes. Da nascente à voz. Contributos para uma pedagogia da leitura.Lisboa, Ed. Caminho, 1996 (excertos adaptados)

Falta de Tempo

Já me perguntaram por mail se eu desisti de escrever no meu blogue...
Pois bem, aqui fica a justificação: não desisti, mas não tenho tido muito tempo no meio das minha corridas (foram as aulas de fim de período, avaliações, papeis e mais papeis, reuniões de avaliação, varicela da Leonor, infecção na minha garganta com duas idas ao Centro de Saúde,...) e depois, as coisas que eu tenho visto só me provocam um sentimento que eu traduzo com a letra e música seguintes....

Para bons entendedores meia palavra basta, mas não se aflijam que eu não desisti...



Cheia de penas
Cheia de penas me deito
E com mais penas
Com mais penas me levanto

No meu peito
Ja me ficou no meu peito
Este jeito
O jeito de querer tanto

Desespero
Tenho por meu desespero
Dentro de mim
Dentro de mim o castigo
Eu nao te quero
Eu digo que nao te quero
E de noite
De noite sonho contigo

Se considero
Que um dia hei-de morrer
No desespero
Que tenho de te nao ver
Estendo o meu xaile
Estendo o meu xaile no chao
Estendo o meu xaile
E deixo-me adormecer

Se eu soubesse
Se eu soubesse que morrendo
Tu me havias
Tu me havias de chorar
Por uma lagrima
Por uma lagrima tua
Que alegria
Me deixaria matar

Dulce Pontes / Carlos Gonçalves

Páscoa - Festa móvel

A Páscoa é sempre no primeiro Domingo depois da primeira lua cheia depois do equinócio de Primavera (20 ou 21 de Março).
Esta datação da Páscoa baseia-se no calendário lunar que o povo hebreu usava para identificar a Páscoa judaica, razão pela qual a Páscoa é uma festa móvel no calendário romano.
Este ano a Páscoa acontece mais cedo do que qualquer um de nós irá ver alguma vez na sua vida!
E só os mais velhos da nossa população viram alguma vez uma Páscoa tão temporã (mais velhos do que 95 anos!).

1 - A próxima vez que a Páscoa vai ser tão cedo como este ano (23 de Março) será no ano 2228 (daqui a 220 anos).
A última vez que a Páscoa foi assim cedo foi em 1913.
2 - Na próxima vez que a Páscoa for um dia mais cedo, 22 de Março, será no ano 2285 (daqui a 277 anos).

A última vez que foi em 22 de Março foi em 1818. Por isso, ninguém que esteja vivo hoje, viu ou irá ver uma Páscoa mais cedo do que a deste ano.